Se você entrasse no meu home office em uma tarde qualquer, veria uma tradutora concentrada em prazos rigorosos, revisando frases como quem resolve um quebra-cabeça delicado.
Mas, se olhasse mais de perto, perceberia que aquela cadeira está bem ocupada por mais de uma pessoa.
Muita gente me pergunta como eu concilio a carreira de tradutora com a de autora. A resposta curta é: eu não concilio sozinha.
Eu tenho ajuda da A.C. Meyer.
E tenho ajuda da Sophie Adams.
E, em certos dias, preciso literalmente sentar para conversar com as duas.
Para mim, a Sophie não é apenas um pseudônimo na capa de um livro.
Ela é uma forma diferente de existir dentro da escrita.
Eu encaro as duas como personas completamente separadas. A ponto de eu falar da Sophie como se ela fosse outra pessoa. E sim, eu sei que isso soa um pouco peculiar. Mas quem escreve entende que cada história pede um corpo diferente para habitar.
Existe um interruptor mental que eu preciso virar.
Quando a Sophie assume o teclado, o clima muda. A voz muda. O ritmo muda. O romance ganha outra textura. É como se eu cedesse o lugar para que ela conte a história dela, enquanto a Andreia tradutora ou a A.C. Meyer dão um passo atrás para tomar um café.
Não é teatro.
É organização emocional.
Teve um dia em que percebi que as três estavam falando ao mesmo tempo.
A tradutora preocupada com prazo.
A A.C. Meyer planejando próximos lançamentos.
A Sophie querendo escrever algo completamente fora do que eu havia planejado.
Eu estava cansada. E, mais do que isso, estava confusa.
Então fiz algo que pode parecer simples, mas mudou tudo: marquei uma reunião comigo mesma.
Sem planilha.
Sem meta de produtividade.
Sem cobrança.
Eu sentei e perguntei:
Quem precisa escrever agora?
O que essa história está pedindo?
Qual voz está mais viva?
E a resposta veio clara.
Escrever sob nomes diferentes não é fugir de mim mesma.
É explorar camadas que talvez não coubessem todas sob o mesmo rótulo.
A A.C. Meyer carrega o romantismo, a esperança, o afeto que cura.
A Sophie é mais ousada, mais intensa, mais direta.
As duas são verdadeiras.
As duas sou eu.
Mas elas não escrevem do mesmo lugar emocional.
E respeitar isso foi libertador.
Eu não tenho uma fórmula impecável.
Não acordo dividindo o dia em blocos perfeitamente organizados.
Às vezes, a tradutora invade o horário da autora.
Às vezes, a Sophie aparece quando eu deveria estar revisando um capítulo histórico.
Às vezes, a A.C. Meyer resolve surgir no meio de um projeto completamente diferente.
E tudo bem.
O segredo não é controlar todas as vozes.
É escutá-las na hora certa.
Talvez a maior lição dessa “reunião” tenha sido perceber que não preciso escolher entre uma ou outra.
Posso ser múltipla.
Posso trocar de pele.
Posso permitir que cada parte minha tenha espaço.
Escrever é isso também: reconhecer que a criatividade não é linear. Ela é coral.
E, se você me perguntar hoje como eu concilio tudo, eu diria:
Eu não concilio.
Eu converso.
E, quase sempre, a conversa termina com alguém dizendo:
“Ok. Agora é a sua vez.”