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Sinopse: |
E se o homem que você sempre foi apaixonada e nunca olhou na sua direção, de repente estivesse solteiro e pedisse para morar na sua casa?
Oriane sempre foi apaixonada por Jules, há tanto tempo que já nem se lembra quando começou. Mas ela se mantém distante, até porque ele está em um relacionamento sério há anos, e, claro, nem desconfia desse crush. Como Jules é impossível, ela procura o amor em outros lugares, pois tudo o que ela mais deseja atualmente é não ser mais solteira, mas a sorte não está do lado dela.
Jules achava que tinha tudo: ia pedir a namorada em casamento, viver uma vida feliz administrando o Bar de la Place e todo o sentimento de família e pertencimento que vem com morar em uma cidade pequena. Mas deu tudo errado: ele perdeu a namorada e a casa em um só golpe do destino, e ainda foi parar na delegacia.
Agora Jules vai precisar de um lugar para morar enquanto arruma o apartamento, e acontece que Oriane tem um quarto sobrando na casa dela... |
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Capítulo 1 |
Oriane |
Finjo estudar com atenção o cardápio do Bar de la Place. Não que precise, eu o conheço mais ou menos de cor mesmo que o chef tenha como questão de honra mudá-lo a cada estação. Mas o que estou realmente procurando nele é a resposta para a pergunta: “O que devo pedir para causar uma boa impressão?” |
Dou uma olhada no homem a minha frente. O nome dele é Franck. Ao menos, é o que diz o seu perfil do aplicativo de encontros, assim como sua idade: 29 anos e seu signo: Aquário. É claro que quem me conhece sabe que não vou me contentar com essas poucas informações e algumas conversas online. Deve ser um problema da minha profissão: eu sou policial. Todo mundo é suspeito até que se prove o contrário. Por outro lado, está fora de questão usar os recursos do trabalho para fazer minha pesquisa particular. Em primeiro lugar, porque é totalmente proibido e em segundo… na verdade, não tem segundo ponto, até tenho um monte de contra-argumentos, mas minha ética me impede de violar essa regra. |
Mas é claro que fiz uma investigação antes de aceitar me encontrar com ele. Mas me contentei com os meios oferecidos a todos, ou seja, digitar seu nome na internet. |
Ele tem um cachorro, um maltês de 2 anos; isso eu descobri no perfil do Facebook. Teria preferido algo mais… não sei, um pastor alemão ou um dogue alemão, mas por que não? |
Minhas pesquisas não me fizeram descobrir nenhuma esposa, concubina ou noiva. O primeiro caso sendo mais fácil de descobrir que os outros dois. Fora a sua participação em fóruns de videogame, Franck não parece colocar sua vida na internet. Seu perfil no Instagram não tem nada além de uma única foto de um copão de cerveja, postada há dois anos, certamente do dia em que ele criou o perfil, sem ter jamais voltado a ele. Em suma, se ele me disse seu nome verdadeiro, preciso acreditar que Franck Adonis não tem nada de comprometedor para esconder. Só o fato que a sua foto de perfil faz mais justiça ao seu sobrenome do que a verdade. |
— Você sabe o que vai pedir? — pergunta ele, certamente sentindo que o observo. |
— Ainda não. |
O que é verdade. Como cada vez que me encontro neste tipo de situação, estou superconsciente de mim mesma. O entrecôte me chama a atenção, em especial quando penso nas batatas fritas da casa que o acompanham. Será que Franck é do tipo de homem que julga as mulheres pelo que elas põem no prato? Seria melhor eu pedir alguma coisa mais delicada, menos calórica, como uma salada? Ou quem sabe o creme de tubérculos? |
Mas estou com o estômago roncando, tive um longo dia de trabalho e hoje fez um frio de doer, então algumas folhinhas de alface não serão suficientes para me sustentar. Se acrescentarmos a isso o fato de que certamente vamos pedir uma taça de vinho — é o mínimo que espero — ficarei com a cabeça girando em pouco tempo. Preciso comer alguma coisa, senão estou no caminho da catástrofe. |
— Vocês já escolheram? — pergunta a garçonete sem nem mesmo um boa noite. |
Levanto os olhos e me surpreendo em descobrir que é a Marie-Jo, uma das figuras da vila, mais conhecida nestas partes por emendar um copo no outro do que por lhes servir. |
Ela levanta uma sobrancelha desdenhosa, como se quisesse dizer: “E daí? Estou trabalhando aqui, isso é um problema para você?” |
— Eu vou querer de uma salada caesar — anuncia Franck. |
Droga! Ele não podia ter pedido uma coisa mais… consistente? Não sei: um magret de pato, um escalope à milanesa… não uma salada! Vou ficar parecendo o quê? |
Volto nervosa para o cardápio, esperando ter uma revelação repentina que me permita escolher um prato que satisfaça ao mesmo tempo minha fome e minhas inseguranças. |
— Posso anotar seu pedido, Oriane? — insiste Marie-Jo que bate com sua caneta contra o bloquinho de comandas em sinal de irritação. |
Tendo sido pega assim de surpresa, acabo soltando: |
— Vou querer o entrecôte. |
Ela dá uma fungada desdenhosa que, em vez de me fazer me arrepender da minha escolha, me dá a coragem necessária para aumentá-la: |
— Com molho bérnaise, por favor. |
O sarcasmo na minha palavrinha mágica não passa desapercebido. Os olhos de Franck dão voltas entre nós. |
Marie-Jo se afasta e tenho uma vontade repentina de me justificar: |
— Eu a multei por estacionar em local proibido há algumas semanas, acho que ela deve estar um pouco rancorosa. |
É apenas parte da verdade, mas prefiro manter o resto só para mim. Não quero lhe confessar que ela certamente tem comentários a fazer sobre a minha escolha de prato. Como um cara tão fino quanto um palito, e que certamente foi assim a vida inteira, poderia entender, de qualquer jeito? |
— Ah, sim! Porque você é policial — ressalta Franck, como se pudesse ter esquecido este detalhe, mesmo que tenha sido um dos primeiros assuntos que ele trouxe quando nos sentamos agora há pouco nesta mesa. |
Meu trabalho deixa pouca gente indiferente. E as reações são em geral diametralmente opostas. Tem os que querem cuspir na minha cara e os que acham fascinante. Franck está na segunda categoria. Na verdade, ele estava fascinado até eu revelar que não tive muitas chances de trabalhar em casos de homicídio. Na prática, nunca. É preciso dizer que a taxa de criminalidade de nossa pequena vila de Cadenel está em um nível ridiculamente baixo, o que faria meus colegas das periferias violentas morrerem de inveja. Não é que os habitantes sejam santos, mas a maioria das infrações estão mais para uma incivilidade banal do que para crime organizado. |
Alguns minutos depois, nossos pratos chegam. Quente e gostoso diferente da nossa conversa, que esfria a cada minuto. Franck parece ser do tipo que fala pouco, mas entendi que ele estava fazendo um esforço e isso me agradou. É bom ressaltar que o próprio conceito de um primeiro encontro pode ser bem angustiante para quem não é bom de conversa. Fuzilo Marie-Jo com os olhos quando ela utiliza um tom muito condescendente para declarar: |
— Suponho que a salada seja para a senhorita? — diz ela, insistindo com isso sobre a minha condição, como se Franck não soubesse |
Grande novidade: é justamente por isso que estamos jantando juntos. Não porque este seja necessariamente o perfil do homem da minha vida. Pelo menos, está muito cedo para ter certeza. Mas, ao menos, tendo conseguido este encontro, aumentam um pouco as minhas chances de ganhar na grande loteria da felicidade. |
Franck limpa a garganta e anuncia: |
— Não, é para mim. |
Ela serve nossos dois pratos e vejo meu parceiro lançar um olhar estupefato para o meu. Vale dizer que aqui o chef não brinca com os clientes, as porções são bem generosas. E como as minhas formas também são e que meu estômago ama satisfazê-las, é perfeito. Pelo menos na teoria. Pois na prática tenho aquela vozinha na minha mente que não para de repetir que eu poderia ter escolhido uma coisa mais… leve? Mais feminina? Será que a gente deveria realmente decretar que alguns partos são mais masculinos e outros mais femininos? Não tenho certeza. Mesmo assim, parece que existe essa regra implícita que diz que é desse jeito. Em especial, em um primeiro encontro. Você já ouviu um cara falando: “Soube que era ela no momento em que a vi devorando uma costela bovina?” Mas também não tenho lembrança de ter ouvido ninguém ficar empolgado com a maneira como uma mulher resistiu para só comer uma rodela de tomate. Por isso, é com bom grado que ataco finalmente o meu pedaço de carne. |
Aproveito também para analisar, sem dar na cara, meu companheiro de mesa. |
Franck não é uma beleza de parar o trânsito, isso já tinha reparado. E tenho bastante consciência de que também não sou. Ele não é repulsivo tampouco. Está certo, sua silhueta é muito mais longilínea do que eu gostaria, mas ele tem dois lindos olhos negros risonhos que terminam em pés de galinha. O que é um ponto positivo a meu ver. Um companheiro que gosta de rir e de sorrir, não é uma qualidade essencial em um homem? Ele tem dentes perfeitos que, mesmo que tenham sido certamente o resultado de anos de ortodontia, ao menos provam que ele leva a sério sua higiene bucal. Seus cabelos são loiros pálidos e ele está um tanto careca, mas vamos esperar que, se um dia tivermos filhos, eles herdem a minha espessa cabeleira castanha. Não tenho muitos atributos e meus cabelos são o que eu mais gosto em mim. Pois, sejamos honestos, tenho cabelos bonitos. Do tipo que poderiam fazer anúncios para uma marca de xampu. Sim, a esse ponto. É claro que eu precisaria ficar de costas e que o ângulo cortasse a parte de baixo do meu corpo, mas daria sim. |
Em suma, meu exame minucioso do físico de Franck me deixa classificá-lo na categoria: bem possível. Falta saber se a sua personalidade vai me seduzir. |
Não acho que eu seja muito exigente neste aspecto. Só quero um homem que vai ser um companheiro de vida agradável, com uma personalidade fácil, é o que eu procuro. E, é claro, alguém que tenha afeição por mim. Não sou cínica a ponto de achar que só um cachorro pode te dar um amor incondicional, mas também não sou utopista. A verdade é que nem todos temos a chance de encontrar o amor verdadeiro. Podemos dividir a existência com alguém que nos respeite e que nos aprecie, mesmo que não seja uma paixão intensa. Isso não impede de achar que é possível vencer no jogo do amor. |
Capítulo 2 |
Oriane |
Minha vida amorosa é uma série de primeiros encontros desastrosos. |
Vou para cada um deles com o coração cheio de esperança, inflado como um balão de festa. No entanto, o ar dentro desse balão nunca é hélio para alçar voo. Invariavelmente, vai murchando pouco a pouco ao longo da noite, apesar de algumas vezes parecer que alguém pisou nele para estourar e fazer barulho. |
Assim que acabamos nossos pratos, vejo que os olhos de Franck me estudam. Pode até ser um tanto normal, estamos aqui para nos conhecer, para descobrir se tem química entre nós… só que estou me sentindo sendo observada como um animal exótico e infelizmente sei qual é o ponto exato do meu físico que chamou a atenção dele. Devagarinho meu balão murcha até que ele enfim abre a boca: |
— Você já quebrou seu nariz? Como isso aconteceu? |
Não é a primeira vez (e certamente não será a última) que me fazem essa pergunta. Por isso, respondo como uma voz blasé: |
— Nunca quebrei meu nariz. |
Só ganhei na grande loteria genética. |
Levo meu copo aos lábios e bebo um gole de água para esconder minha vergonha visto que Franck não teve a delicadeza de recomeçar com um outro assunto. Aliás, ele está me observando, com a cabeça inclinada, como se quisesse decidir se não tinha lhe escapado algum detalhe. |
— Você tem certeza? Porque parece que… |
— Sim, tenho certeza — eu o corto, irritada. |
Ele está achando o que? Que eu teria esquecido uma coisa como essa? |
Sua cruel falta de tato acaba de derrubar de maneira magistral a minha autoestima. E como se não fosse suficiente, ele acrescenta: |
— Pensando bem, é uma vantagem considerando a sua profissão. Você pode fingir ser muito mais barra pesada, durona, sem precisar fazer nada para justificar a fama. |
Ele pontua a frase com uma risada suína, nem um pouco constrangido pelo fato de que não estou achando graça, nem mesmo um pouquinho. |
É a hora em que eu deveria sair com uma resposta bem dada. Ele já se olhou no espelho? Calvo sem nem ter completado 30 anos. As mãos ridiculamente pequenas. Será que já perguntaram se ele comprava luvas na seção infantil? |
Mas sou incapaz de colocá-lo no lugar dele. Simplesmente porque tenho um nó que aperta cada vez mais minha garganta e sinto meus olhos queimando. Na adolescência, tive minha dose de escárnio e apelidos ridículos por causa do meu nariz. Nem estou contando o número de vezes que peguei as pessoas observando esse detalhe da minha fisionomia com muita insistência. Podem pensar que já teria me acostumado, na minha idade, e que, seguindo o exemplo de Cyrano, sou capaz de me defender de qualquer um que me atacasse nesse ponto. Mas não é o caso. Meu nariz é tipo o meu tendão de Aquiles e, como ele está bem no meio da minha cara, fica muito mais exposto, e eu, vulnerável. |
Vejo sua boca se abrir para certamente acrescentar mais alguma coisa na forma de piada que só ele achará engraçada. |
— Você me dá licença, preciso ir ao toalete — grasno enquanto me levanto de uma vez só, a fim de cortar o mal pela raiz. |
Minhas pernas estão bambas. Tento escapar o mais rápido possível para que ninguém veja que estou quase me acabando em lágrimas. Conheço mais do que a metade das pessoas sentadas neste restaurante, não tenho vontade de ser o assunto das fofocas da vila pelos próximos dias. Isso vai me ensinar a não marcar encontros com homens em um lugar que venho toda hora. Teria sido melhor se o encontro fosse em outra cidade. |
Chegando no banheiro, tenho que encarar os fatos: todas as cabines estão ocupadas. Para minha sorte, a pia está acessível, então aproveito para borrifar água no rosto e tentar me acalmar. Coloco as mãos em ambos os lados da bacia, abaixo a cabeça, e suspiro. Quando volto a levantar a cabeça, meus olhos cruzam com o meu reflexo no espelho. Rio dissimulada por dentro. Valeu mesmo a pena ter tentado me maquiar? Arruinei tudo em 30 segundos. E eu achava o quê? Que por causa de um pouco de blush e rímel iria me tornar uma femme fatale? |
Não me maquio muito, ou melhor, quase nunca. Para começar, porque não sei muito como fazê-lo. Quando se cresce sem uma mãe ou uma irmã pra te mostrar como fazer, fica complicado. Além disso, não tinha muito interesse nisso na adolescência, meus óculos de fundo de garrafa escondiam a metade do meu rosto. Quando comecei a trabalhar, me convenci de que seria mais prático assim. Sendo a única mulher da minha brigada e tendo que trabalhar duas vezes mais que meus colegas homens para provar meu valor, acabei deixando de lado tudo que demonstrava minha feminilidade. Queria ser um dos caras, então, já que eles nunca tiravam o batom do bolso para retocar no fim do serviço, me convenci de que também não faria isso. |
Tento, de alguma forma, esfregar com os dedos os traços negros que apareceram debaixo dos meus olhos. Não ia suportar voltar para o salão do restaurante com uma maquiagem de panda. Mas vou precisar voltar mesmo que seja apenas para anunciar para Franck que vou embora. Vou ter que fingir uma enxaqueca ou inventar alguma urgência. |
A porta de uma das cabines se abre e uma loira deslumbrante sai dela. Eu me desloco para poder lhe dar espaço na pia, fingindo estar procurando alguma coisa na minha bolsa para evitar que ela se pergunte o que ainda estou fazendo por aqui. Eu a observo de canto de olho. Ela é perfeita: do vestido vermelho até o salto de seus escarpins. Depois de lavar as mãos, ela se olha no espelho. Ajeita os cachos loiros, verifica o estado da sua maquiagem e depois sorri. Sim, ela sorri para seu reflexo! Parece feliz com o que ela vê. Ela sai em seguida sem uma palavra, mas com um andar seguro como se fosse conquistar o mundo. |
Fico então sozinha neste cômodo de iluminação esverdeada. Me aproximo e olho de novo o meu próprio rosto, mas não tenho vontade de sorrir. Meus olhos castanhos são comuns, minha boca é fina demais e nem quero começar a pensar no meu nariz. Só tem meus cabelos para compensar o conjunto, e ainda assim. Esse único atributo não me permite ser classificada na categoria das mulheres bonitas. Meus ombros são quadrados demais, sou muito alta. Nenhum homem gosta de ter que olhar para cima quando conversa com uma mulher. |
Suspiro de novo e me convenço de que não devo me deixar abater. Afinal de contas, só tenho 25 anos, ainda tenho tempo de encontrar alguém que vai saber gostar de mim do jeito que sou. O caminho com certeza vai ser longo, mas como canta uma certa princesa: “Meu príncipe vai chegar”. Minha amiga Romy brinca dizendo que ele está perdido e que, sendo um homem, se recusa a pedir informações. Mas um dia ele encontra o caminho! |
Enquanto isso não acontece, preciso avisar ao sapo que me espera no salão que quero ir embora. É maldoso compará-lo com um anfíbio quando acabo de me chatear porque ele zombou do meu físico? |
Mas ele bem que mereceu! Como eu pude imaginar por um segundo que ele era o cara para mim? Além disso, ele pediu duas Coca-Colas como aperitivo! Quem faz isso antes de uma boa refeição? Só mesmo quem quer uma gastrite. |
Com as forças renovadas por essa reflexão pueril, saio do banheiro; estou passando pelo corredor em direção ao salão quando ouço uma voz. Paro no meio do caminho. |
Esta voz que conheço tão bem. Não deveria, mas decido ficar onde estou e escutá-la por mais alguns segundos. O timbre é quente e grave. Ela tem em mim o mesmo efeito que chocolate derretido no inverno. Alguma coisa doce e sensual ao mesmo tempo, que faz vibrar cada célula do meu corpo. |
Como uma viciada, me aproximo. A porta do depósito, que também serve de escritório para o chef do Bar de la Place, está entreaberta. A voz vem de lá. |
Primeiro, acho que ele deve estar no telefone, mas escuto uma segunda voz masculina: |
— Se você não me pagar em até dez dias, não vou poder te fazer mais entregas. |
— Eu sei, eu sei, só te peço mais um tempinho, o tempo de me refazer. |
— Você sabe muito bem o que o chefe vai dizer, estou com as mãos atadas. Se fosse só por mim… |
— Sim, eu sei — ele o corta. — Vou tentar achar uma solução. |
Essa resposta é seguida por um longo suspiro. |
Eu não devia estar escutando atrás da porta. Não era a minha intenção. Bem, era, mas não assim. Quero dizer, eu poderia escutá-lo recitar a lista telefônica só pelo prazer de ouvir a voz dele. Não esperava ouvir uma conversa importante. Será que era importante? Tenho impressão de que sim. Além disso, devo confessar, atiçou minha curiosidade. Me aproximo mais dois passos… |
De repente, a porta é escancarada e quase bate na minha cara. Consigo desviar da porta em si, não consigo desviar do homem que está saindo do cômodo. Mais precisamente, do ombro dele. |
— Ai! |
Acabo de levar uma pancada bem no meu rosto. O homem mal se vira, apenas murmura um: |
— Perdão. |
E se afasta sem mais uma palavra. Logo em seguida, um segundo homem sai do depósito e olha em minha direção. Esse eu conheço. É o chef do restaurante. Ele também é o dono da voz de veludo e de um monte de qualidades físicas que eu não posso apreciar agora, pois minha mão está sobre o meu rosto ferido. Decido então que prefiro sofrer um pouco mais a retirando do rosto, para poder apreciar a vista. Pois se tem um homem que não me canso de observar é ele: Jules Pons. |
— Está tudo bem? O que você estava fazendo atrás da porta? — ele pergunta, cruzando os braços. |
Postura que tem como consequência atrair meu olhar para seus antebraços nus e seus bíceps que aparecem debaixo de seu casaco de chef. Um de seus braços é coberto por tatuagens que eu adoraria contornar com a ponta dos meus dedos… ou com a minha língua. |
— Oriane? |
Meu nome em sua boca é sempre uma delícia de ouvir, mas os poucos neurônios ainda ativos em meu cérebro gritam para mim que ele está esperando uma resposta. |
— Estava voltando do banheiro, me distraí com o celular e não vi a porta abrir. |
Minha mão vazia deixa a minha mentira menos crível, mas ele parece não perceber. Então, acrescento para mudar de assunto: |
— Muito bom o entrecôte! Parabéns! |
Parece que acabo de o parabenizar pelo nascimento de seu filho. |
Você é ridícula Oriane… |
Um leve sorriso estica seus lábios e ele murmura: |
— Obrigado. |
Percebo que ele parece cansado. Seus olhos azuis cercados de preto parecem tristes. Seus cabelos cor de azeviche, que geralmente estão penteados até estarem perfeitos, estão negligenciados. Ele bem que precisaria dar uma passadinha no cabeleireiro. Mas devo parar de ficar encarando-o feito besta desse jeito, então abro a boca sem pensar no que vou dizer. |
— Bom, é, bem… eu… hum… vou precisar ir agora. Estou num encontro, veja você. Com um homem… enfim, sim, claro que é com um homem. Também poderia ter sido com uma mulher. Mas, veja bem, não é a minha… Se bem que já me tomaram por lésbica. Mas eu não sou… não tenho nada contra as lésbicas, você sabe disso. É só que… |
— Sim, acho que entendi — ele se diverte. |
— Bem, tudo bem… seria melhor eu ir embora. |
Sinto que minhas bochechas estão vermelhas escarlates. Contorno Jules lhe lançando um último olhar e escapo em direção ao salão. Por que a proximidade com esse homem sempre me deixa nervosa? Entretanto, eu o conheço há uns doze anos. E, se for honesta, minha quedinha por ele tem o mesmo tempo. Mas não tem nada que eu possa fazer. Na presença dele, fico tão à vontade quanto um peixinho dourado fora do aquário. |
Preciso encarar os fatos, esta não foi nada além de uma das milhares de vezes que fiz papel de ridícula na frente dele. E alguma coisa me diz que não será a última… |
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cheirinhos
Rudy