No passado dia 21 de março assinalou-se o Dia Mundial da Poesia e a editora Gato-Bravo, braço direito lusitano da Jaguatirica, merece um destaque especial pela Claro Enigma, uma coleção inteiramente dedicada à poesia, que prepara já o sexto volume, o livro Um instante na noite, ainda no prelo, do escritor português Pedro Chambel, também publicado pela Jaguatirica (Marés de setembro, 2024). O lançamento está previsto para breve.
A coordenação da coleção está a cargo de um velho amigo da Jaguatirica, o poeta António Carlos Cortez, autor de quatro obras publicadas pela editora, O tempo exacto - antologia pessoal (2015), Corvos Cobras Chacais (2017), Poética com dicção (2019) e Uma certa poesia (2022), estando a segunda e a terceira também publicadas pela Gato-Bravo, em Portugal.
A colecção Claro Enigma reúne vozes importantes que habitam o território da sombra das palavras, onde o sentido se revela lentamente, na atenção de quem lê e se deixa atravessar. Cada livro propõe uma experiência sem ruído — uma leitura que permanece, discreta, nos dias que se seguem.
As obras que já constam no catálogo são O sol abate-se (Elsa Ribeiro Alves, 2021), Como acabar as coisas (Pedro Reis Colaço, 2021), Refracção (Rui Teixeira Motta, 2021), Baleias, Bromélias e Outras Naturezas (Kátia Bandeira de Mello, 2022) e Solo à luz (Luísa Costa Macedo, 2023).
A propósito do passado mês da Poesia, a Jaguatirica conversou com António Carlos Cortez, coordenador da coleção, poeta e ensaísta.
SOBRE O COORDENADOR
António Carlos Cortez é professor de literatura portuguesa, poeta, crítico literário e ensaísta, nasceu em Lisboa em 1976. É investigador do CEHUM (Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho), bolseiro da FCT. Publicou desde 1999 quinze livros de poesia. Destacam-se da sua obra títulos como A sombra no limite (Gótica, 2004), Depois de dezembro (Prémio da spa, 2011), O nome negro (Relógio d’Água, 2013), A dor concreta (Tinta da China, 2016 - Prémio Teixeira de Pascoaes da APE, 2017), Corvos cobras chacais (Jaguatirica, Brasil, 2017, finalista do Prémio Oceanos 2018), Jaguar (Dom Quixote, 2019 - Prémio de Poesia Ruy Belo e Prémio António Gedeão/Fenprof 2020), Diamante (Dom Quixote, 2021 - vencedor do Grande Prémio de Poesia da APE em 2022). Estreou-se na ficção, em 2022, com Um dia lusíada (ed. Caminho). Na área da crítica e ensaio, publicou Nos passos da poesia (Apenaslivros 2005), Voltar a ler (Gradiva, 2018), Poética com dicção (Gato-Bravo, 2020), Crítica crónica (Guerra & Paz, 2021). Uma certa poesia é o seu mais recente livro de ensaios no Brasil, após edição original em Portugal em 2018.
Como sente a resposta do público brasileiro à sua poesia?
Devo muito ao Brasil, em especial às universidades UFRJ, UFF e UERJ. Isto porque professores como Ida Alves, Eucanaã Ferraz, Luís Maffei e Sérgio Nazaré David, ou Marcelo Moraes Caetano tiveram para comigo ações generosas, falando de livros meus, convidando-me para cursos de verão nos quais pude lecionar poesia contemporânea portuguesa. É nesse plano que, julgo, alguma poesia minha tem chegado. Lembro que é no Brasil que existem duas teses de mestrado sobre livros meus. E devo, por outro lado, a Gilda Santos, do Real Gabinete Português de Leitura, a possibilidade de ter falado já em varias ocasiões no RGPL. Jorge de Sena e Gastão Cruz, sobre estes poetas pude fazer conferências em 2019 e já em 2023. Nessa circunstância também a Universidade de São Paulo, na pessoa da Professora Doutora Simone Caputo Gomes, me foi lugar de enorme adesão. Está, inclusivamente, em processo, um possível curso sobre poesia portuguesa dos anos de 1060 a 2025 a lecionar nessa universidade.
Como observa a troca entre poetas portugueses e brasileiros na contemporaneidade?
Julgo será sempre da maior importância essa troca cultural. Publiquei em 2020, na Gato Bravo, um livro de ensaios sobre 16 poetas brasileiros; livro esse que é uma reunião das muitas resenhas e ensaios que dediquei a poetas do Brasil, que amo. Drummond e João Cabral, Antonio Cícero, Eucanaã, Simone Brantes, Paulo Henriques Britto, Marília Garcia, Ana Cristina César, eis alguns. Sei também do esforço de editoras por publicarem poetas portugueses. A 7Letras e a Companhia das Letras são, neste particular, essenciais. Mas falta, a meu ver, uma antologia magna da poesia portuguesa dos últimos 50 anos, uma que contemplasse autores pouco conhecidos no Brasil. Deixo quatro nomes: Luís Miguel Nava (1957-1996), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Manuel Gusmão (1945 - 2023) e um desconhecido também em Portugal, Eduardo Guerra Carneiro (1944-2004). Há mais poetas a conhecer. E há, já agora, que romper com certos poderes que, no Brasil como em Portugal, sempre divulgam só os de determinados comités da poesia. Nota importante: para que esse diálogo exista, teria de haver uma revista, como em tempos a Inimigo Rumor, que, luso-brasileira, divulgasse e promovesse não uma, mas as várias tendências da poesia destes dois países. Não só a poesia-relato, a poesia que narra, ou que dilui a metáfora e certos processos retóricos ao nível da sintaxe e da semântica, mas que abrisse espaço a expressões mais clássicas e onde o diálogo mais arriscado porque vindo da tradição se mantém. A poesia portuguesa e a poesia brasileira não é só rasura ou dessacralização do poético. Há poetas - Daniel Faria (1972-2001), Ruy Belo (1933-1978) - para os quais a imagem e o lado laboratorial do poema são essenciais para uma construção imaginativa da linguagem. A troca entre estas duas poesias não pode circunscrever-se à moda, as de lá e as de cá.
A coleção Claro Enigma tem a sua coordenação. Conte-nos mais sobre essa experiência.
Essa colecção deve o seu nome ao livro de Drummond. Trata-se de uma pequena editora da Paula Cajaty e do Marcel Lopes, editores que me contataram há muito, em 2012, e com os quais tenho procurado dar a conhecer no Brasil poetas portugueses que até mesmo em Portugal são desconhecidos. A experiência é interessante, mas os jornais portugueses, as revistas que deveriam estar atentas ao que esta editora tem feito há mais de dez anos em prol da poesia portuguesa no Brasil, esses jornais e revistas estão sempre sob a vigilância de um ou outro comitê da poesia. Logo, como coordenador dessa coleção, o que procuro é, por outras vias, fazer chegar esses autores aos leitores possíveis. Rui Teixeira Motta, Pedro Chambel ou Pedro Colaço podiam e deviam ter tido maior atenção por parte do jornalismo cultural português. Não tiveram. É pena. Mas a colecção permanece viva e em breve teremos um grande poeta português a sair no Brasil, José Manuel Vasconcelos.
Se pudesse descrever com um único verso o livro ”Um instante na noite”, do escritor Pedro Chambel, que leva o seu posfácio, qual seria?
“Manda-me Amor que cante o que a alma sente”, de Camões.
Outra grande novidade do mês de março foi o programa de rádio A Voz dos Livros, uma parceria entre a Editora Jaguatirica e a Rádio Oeste, que oferecem um espaço dedicado à literatura, à reflexão, à escrita e ao universo dos livros, através de entrevistas com autores e especialistas.
A primeira edição contou com a presença da poeta e editora-chefe Paula Cajaty, no dia 11 de março. No dia 20, o professor e escritor Edgard Leite participou da segunda edição, na qual apresentou o livro Tempo, Eternidade e Sentido da Vida (2025), uma reflexão filosófica sobre o tempo e o sentido da existência. No dia 25 de março, foi a vez do autor Sócrates Nolasco, com a obra Não matarás (2025), investigando as raízes do antissemitismo e seus desdobramentos no presente, em um percurso que articula história, cultura e responsabilidade moral.
A próxima edição já tem data marcada para sexta-feira, dia 10 de março, com o autor português Vitor Vicente (Israel, Jezebel - 2019 e Sobre vivências em Barcelona - 2021) como convidado.
Entrando no prelo, mas já em clima de semana santa, Pães para a Vida é uma obra que celebra a panificação artesanal como um manifesto de resistência cultural e um resgate das tradições milenares contra a desumanização da modernidade industrial.
O livro é curado com esmero pela Gato-Bravo e a Jaguatirica é a casa editorial responsável por materializar o projeto gráfico e editorial, unindo o rigor da tradição literária à excelência da gastronomia, em uma obra que funciona como guia e referência de preservação cultural. Nela, o leitor é convidado a uma odisseia sensorial que transcende o simples ato de cozinhar. A obra é uma homenagem ao alimento mais universal da humanidade, decodificando a alquimia fundamental da farinha, água e sal. Através de uma viagem por continentes e séculos, o livro reúne histórias quentes e perfumadas que têm sustentado civilizações, propondo um retorno ao ritmo orgânico do amassar e do esperar, em uma celebração da vida e da união global.
Como um crítico que percorre as cozinhas do mundo, a obra explora a transição entre a tradição ancestral e a pureza dos ingredientes simples. O texto conduz o paladar desde a elegância técnica da baguete francesa, com sua crosta crocante e miolo aerado, até o conforto do naan sul-asiático, destacado por sua textura de travesseiro e icônicas manchas carbonizadas. A jornada passa pela focaccia italiana, perfumada com azeite e alecrim, e encontra seu ápice na engenhosidade brasileira com o pão de queijo. Este último é apresentado como uma joia da resiliência mineira, com seu exterior dourado e nítido, que protege um centro cálido e generoso, símbolo de uma identidade que atravessa gerações.
Para além da técnica, o livro ancora-se no afeto e na viabilidade prática da cozinha doméstica. Um dos pontos mais tocantes da obra é a receita de Pão-de-minuto de Maria Déa Marques Cajaty, avó da editora-chefe Paula Cajaty.
Essa herança familiar exemplifica a alma do projeto: mostrar que a panificação artesanal não é um luxo do passado, mas uma ferramenta cotidiana de conexão humana. Ao final, assar revela-se como um ato vital de cuidado e memória, um elo inquebrável que une o indivíduo à história coletiva da humanidade.
Foi com agradável surpresa que Vladimir Campos se encontrou com as páginas de A editora do passarinho, livro publicado no ano passado pela Jaguatirica, pela pena de Rafael F. Carvalho. A obra é um estudo sobre o legado da Editora Sabiá de Fernando Sabino e Rubem Braga, sobre o processo de crescimento da empresa encabeçada pelos notórios escritores e suas atuações editoriais.
Confira a resenha de Vladimir Campos em seu blogue e se inspire para mais uma leitura na companhia da Jaguatirica.
Descobri o livro A Editora do Passarinho acidentalmente, quando procurava por versões eletrônicas dos livros de Sabino. Ao ver que se tratava de um trabalho relacionado à Editora Sabiá, não tive dúvidas, cliquei imediatamente no comprar e devorei o livro em pouquíssimos dias.
Como Sabino mencionou a editora algumas vezes em seus inúmeros livros, eu já sabia da sua existência e de alguns detalhes. Inclusive, foi assim que descobri e li autores publicados por eles. Um que me veio à mente instantaneamente foi o livro Um Dia no Rio, de Oswaldo França Júnior.
Enfim, sempre quis saber mais a respeito da Sabiá e, com essa leitura, descobri diversas coisas. Por exemplo, a quantidade de livros publicados pela editora é muito maior do que eu imaginava. Fiquei impressionado com a lista e tantos outros detalhes. Mas, ao mesmo tempo, ficou um gostinho de quero mais.
Sei que o foco do livro de Rafael F. Carvalho não era esse, mas minha maior curiosidade sempre foi a respeito do dia a dia das atividades da empresa e o relacionamento entre os editores e os autores. Ele até fala um pouco sobre esses temas, mas queria mais. Muito mais! Estou inclusive pensando em entrar em contato com ele. Os acervos mencionados me levam a crer que provavelmente ele tem materiais e informações adicionais que não foram usados no livro.
E falando no assunto, fiquei também com muita vontade de conhecer o Acervo de Escritores Mineiros da Universidade Federal de Minas Gerais, que inspirou o livro. Estou um pouco longe de lá, mas quem sabe um dia.
“A visita, então, chegou ao acervo de Fernando Sabino. Tive contato com livros, objetos particulares, cartas, bilhetes, entre outros itens.”
A leitura reforçou algo que eu sempre me questionei. Apesar de sua importantíssima contribuição para a cultura brasileira, não só com livros, mas com iniciativas como a Sabiá, quase não há material a respeito da vida e, principalmente, dos feitos de Sabino. Portanto, A Editora do Passarinho é um livro muito bem-vindo! Obrigado, Rafael!
Outro ponto que a leitura reforçou em mim foi a amizade e relação tão próxima de um grande número de autores brasileiros daquela época. Isso é algo que fica muito claro nas cartas publicadas por Sabino, mas foi bom voltar a ler sobre essas histórias.
Quando eu lia Sabino na minha adolescência, ficava sempre imaginando se um dia eu faria parte de um grupo tão próximo de pessoas envolvidas com algo em comum. É um tipo de conexão e colaboração sincera que parece não existir mais nos dias de hoje. Uma pena.
Acredito que meus anos de Evernote foram os mais parecidos com isso. Além das pessoas que trabalhavam na empresa, me aproximei de outros autores, consultores etc. Os tempos de Palm também foram um pouco assim. Mas nada parecido com o que leio a respeito daquele fascinante grupo de escritores.
E, finalmente, há um último detalhe indiretamente relacionado. Assim que acabei o livro, testei o novo sistema de organização da minha biblioteca no Obsidian e, conforme eu já havia previsto, foi extremamente simples guardar as marcações. E agora, escrevendo este texto, me ocorreu outra ideia. Embutir o post na nota do livro.
Conheça o catálogo da editora Jaguatirica.
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Não conhecia a editora jaguatirica
ResponderExcluirEsse post sempre apresenta ótimos lançamentos
olá Rudy!
ResponderExcluirNossa quantas novidades, um livro mais interessante que o outro, e minha lista de desejados só crescendo. Bjs